....
A primeira vez que ele achou que Lua queria comê-lo foi em seu próprio
enterro. Não no seu enterro definitivo. É que, no meio do choro da
viúva, em pleno velório, ele – o defunto – acordou de mais um dos seus
ataques catalépticos. Adiou a morte, portanto. Não é preciso dizer que
foi um Deus nos acuda! O morto voltava ao mundo dos vivos! Depois um
doutor de gaveta declarou, para a rádio local, que um ataque cataléptico
não era coisa assim tão rara. Podia ser novidade lá – pr’aquela
“gentinha de interior”... – De qualquer maneira, o “Seu Dino” ficou
conhecido no lugarejo. Não é sempre que se tem notícia de um ataque
daqueles, cata-o-quê, mesmo? Enfim! Não é todo dia que um vizinho nosso,
da mesma cidadezinha no interior, morre e depois volta à vida.
A
viúva – digo, ex-viúva – desdobrou-se em carinhos com um marido tão
bom, capaz de vencer a própria morte para não abandonar a família. O
prestígio do professorzinho cresceu de noite para o dia – a vizinhança
passou a tratá-lo com um respeito descomedido, até então só dispensado
ao prefeito, ao vigário, e a mais uns dois ou três homens ilustres. No
princípio até chegavam repórteres da capital, atrás de uma entrevista
com o “homem que regressara”. Queriam saber se ele permanecera
consciente no Além. Esperavam, desta forma, obter uma espécie de
comprovação definitiva acerca da “imortalidade da alma”.
O
Dino, para surpresa, recusava-se a falar no assunto. Avesso que era a
essas badalações da imprensa, parecia interessado em esconder algo. Nem
Dona Tereza – esposa do ilustre – conseguiu convencê-lo a dar a tão
falada entrevista. Irredutível, o ressuscitado mal aceitava as honras
que lhe dispensavam. Ia, mas eqüidistantes de tudo e de todos...
Começava-se a comentar que o Professor tinha se encontrado pessoalmente
com o Demônio, com quem negociara a própria alma. Se insistiam muito no
assunto – nesta conversa enjoada de querer saber o “depois da morte” – o
mestre desconversava, dizia que iria pensar na possibilidade da tal
entrevista.
Dona
Tereza, a princípio, apreciou bastante a recém-notoriedade do marido.
Não fazia cinco anos que estavam na cidade, e durante esse tempo não
tinham feito um amigo. Contavam as más línguas que o Dino era um
desequilibrado em recuperação, ali naquele fim-de-mundo por exigência
médica. E ninguém quer ser amigo de um louco em potencial ... Mas,
depois da “morte”, tudo mudou. Redobraram-se as atenções para com o
casal que viera de longe. Dona Tereza adorava ser o centro das pequenas
conversas de esquina. Quer dizer, a mulher do “centro”!
Mas
o fato é que, amigo ou não do Tinhoso, o Dino depois daquilo se tornou
uma figura esquisita. Deu baixa no emprego, aos poucos foi se afastando
de tudo – até se transformar em uma espécie de eremita, entrincheirado
no mistério que envolvia a sua falsa morte. Mal cumprimentava os
vizinhos – por vezes se trancava dias em um quartinho escuro, olhando
através de um telescópio que apontava para as estrelas, só interrompendo
para as refeições que lhe vinham debaixo da porta. Dona Tereza já não
sabia mais o que fazer com o marido, que se recusava até mesmo a ir à
missa! Será que era porque Deus não existia? Ou seria uma cláusula do
seu contrato com o Diabo? Não raro o marido ‘ex-defunto’ acordava aos
berros no meio da noite, pálido, olhos muito redondos – gritando que a
Lua queria comê-lo! Mas nunca contava o pesadelo inteiro, guardião do
segredo que trazia do túmulo.
Um
dia, Dona Tereza resolveu botar tudo em pratos limpos. Obrigou-o a lhe
contar, em todas as linhas e entrelinhas, o que acontecera em sua
“ameaça” de morte.
— Terê! Você promete que não espalha?
— Meu bem, você conhece mulher mais reservada que eu?
Não
conhecia. Acomodou-se melhor na poltrona; olhou em torno: a sala sem
muita luz, finzinho de tarde desenhando-se na janela oposta – moldura
certa para um mistério. Pois bem (começou):
“Depois
do meu desencarne, eu me vi reduzido à curiosa condição “alma-penada”.
Assombrado, via as pessoas sem que elas me vissem, lia seus pensamentos –
chequei a acompanhar o meu próprio velório! Fiz, é claro, as perguntas
que todo morto faria numa ocasião daquelas. Será que Deus existe? O
Diabo? Marx? Cadê o ópio do povo, para eu dar uma pitada? Mas as horas
passavam e – nem sombra do Céu, nem sinal do Inferno. E eu ali,
bisbilhotando as idéias alheias, transparente, invisível,
impossibilitado de filar os salgadinhos que eram servidos em grandes
bandejas, ao redor do meu corpo inerte. Um sufoco!
Foi
aí que tudo aconteceu. Senti uma espécie de “chamado” vindo de cima.
Seria Deus? Olhei para o céu; via a Lua, branca redonda, enorme! Tive a
terrível impressão de que o satélite era um ser vivo! Nesse ponto
comecei a flutuar, como se fosse atraído por aquele colossal
eletroímã. Mulher, você não pode imaginar os calafrios que me
passaram pelo espírito enquanto eu me dirigia, devagar, para aquela
longínqua “boca”. Eu sabia que, assim que chegasse lá, estaria
tudo terminado. Ignorava de que maneira, mas algo me dizia que seria o
fim. Então, ouvi uma voz.
— Vê? A Lua tem fome...
Olhei
perto. Vi um homem, ou o espírito de um homem. Pude perceber que o
pobre estava em condições idênticas às minhas – e que ia sendo sugado da
mesma forma para o alto.
— O Grande tamanduá nos chama...
Disse-me.
“Tamanduá”... Aquela palavra chocou-se com algo em mim. Um
pesadelo antigo? Uma canção de ninar, ouvida na infância?
—
Faltava tão pouco... Se eu tivesse vivido mais alguns anos, tenho
certeza de que teria conseguido despertar, imunizar-me contra o
magnetismo da Lua...
Lamentava o coitado, quase chorando... Interrompi suas lamúrias:
— Amigo, pode me explicar o que está acontecendo?
—
Não percebe, infeliz?!! Nós estamos indo para o Inferno! Para a
extremidade do mundo – para a treva exterior, onde haverá choros e
ranger de dentes!!!
— Como!?? Que dizes?
— A Lua, mano – a Lua! Nós vamos servir de alimento para a Lua.
Compreendi,
finalmente, o horror do meu colega de infortúnio. Nós éramos as
formigas! – nós, a humanidade ingênua, vaidosa, adormecida. Nosso
tamanduá era a Lua! Olhei ao redor... Milhares de almas – e não apenas
de homens, mas também de animais e plantas – eram atraídas pelo imã
lunar.
Ouvi mais uma voz, ao meu lado. Era um senhor já idoso. Parecia um sábio:
—
É isso, sobrinho... Essa é a verdadeira função da vida orgânica sobre a
Terra: somos um gigantesco acumulador de energias! Energia esta
necessária ao crescimento da Lua, essa terrível e faminta deusa! Tudo o
que vivia na superfície do globo – da mais humilde bactéria ao mais
arrogante dos sábios – serve de alimento ao satélite. No instante da
morte, todos os seres vivos liberam certa quantidade de energia que os
animou. Essa energia – o conjunto de todas essas almas – é atraída por
um irresistível poder magnético! Sobrinho... ai de nós! Ai de nós, almas
possuidoras de certa soma de memória!!! Melhor que fôssemos animais
irracionais! Teremos que assistir, em plena consciência, a todo o
processo de digestão lunar! Ficaremos armazenados na Lua sob a forma de
vida mineral, por um tempo incomensuravelmente longo (como num imenso
frigorífico) até que, por fim, a Lua nos coma!
Era
terrível! Tragicômico... Todos os sistemas religiosos do mundo – todas
as promessas de paraísos, nirvanas, campos de caça felizes – não eram
mais que uma grande ironia! Canções de ninar para os homens! Embalavam o
sono da humanidade, iludiam os indivíduos de pertencerem a uma espécie
animal privilegiada, capaz de uma evolução espiritual à parte. Mas agora
eu sabia que a evolução da humanidade, pelo menos para além de uma
ínfima porcentagem, não era nem mesmo possível... isso seria fatal para a
Lua! E se a Lua morresse de inanição, a própria vida na Terra também
pereceria, já que esta perderia toda a razão de existir!
A
essa altura, ouvi alguns gemidos. Olhei. Nosso “grupo de almas” já
estava bem mais próximo da Lua, àquela distância já enorme. Dava prá ver
as crateras – tudo! Nem sombra de Ogum. O Dragão dormia? Mas pudemos
sentir que havia milhões de almas armazenadas no minério lunar – uma
quantidade formidável de energia vital, presa ao satélite por força de
um magnetismo irresistível! De lá vinham os gemidos que ouvíramos! O
Inferno era ali – debaixo das crateras daquele organismo vivo, que
haveria de sugar a todos nós! Alguns começaram a se desesperar, em vão
se debatiam – enquanto a Lua parecia dar boas-vindas à nova leva de
almas que chegava...
...
E foi aí que, inexplicavelmente, eu comecei a retornar... Senti que era
puxado para trás, atraído de novo para a Terra, para o ponto do qual
partira. A Lua foi diminuindo... transformando-se de astro em bola de
futebol, depois em bola de bilhar. Eu fora poupado daquela sinuca! Mas
os outros mortos não tiveram a mesma sorte: Ninguém, nunca mais, os
veria!
Acordei no meio do meu próprio velório, coberto de flores ... ”
Dona
Tereza encostou-se no costado duro da cadeira, de onde escutara
pacientemente a estranha narrativa. Não sabia bem o que dizer. Para
preencher aquele instante de perplexidade, encheu um copo com a água de
uma jarra que tinha ao alcance da mão, numa mesinha ao lado. Bebeu sem
ter sede nenhuma, enquanto olhava um pedaço triste de céu na moldura da
janela, como se buscasse ali inspiração para dizer algo naquele instante
confuso. Hesitou. O Professor curvou-se sobre ela. Tocou-lhe o rosto:
— Terê! Você acredita em mim, não acredita?
— Claro, amor. Mas não pensemos mais nisso... Vamos dormir, está bem?
Naturalmente,
D. Tereza não levara a sério a história do marido. Também pudera! O
homem tinha antecedentes psicóticos e neurastênicos! Estava ‘curado’, é
certo... Pelo menos assim vinha atestado no laudo psiquiátrico que
tinham trazido da capital. Mas quem já foi louco uma vez – está sempre
sujeito a uma recaída! Além do quê, o marido andava mesmo estranho desde
que tinha morrido. Enfim, Dona Terê preferiu não pensar mais naquilo.
Havia coisas mais importantes no seu repertório de preocupações... Por
exemplo, as reservas econômicas do casal começavam a escassear, pois o
Dino não arranjara mais nenhum emprego depois que pedira demissão do
ginásio. A astronomia caseira a que passara a se dedicar obcecadamente,
depois da morte, não iria lhes pagar as contas, a carne, o pão. Dona
Terê quase implorava ao marido que fosse buscar um emprego na
prefeitura. Seria-lhe fácil, tinha um prestígio que só têm os mortos.
Mas o Dino não escutava, continuava olhando o céu do seu quartinho
escuro, muito preocupado, assombrado, como se adivinhasse o fim do
mundo. Se não estavam passando fome agora, era porque tinham alguns
trocados guardados, premonitória iniciativa de Dona Terê no tempo das
vacas gordas. Mas isso não duraria a vida inteira. O pacote de sal de
cozinha já passava da metade...
*
Dias
depois, bem cedinho, havia uma multidão enorme em frente ao sobrado dos
“Dino”. Toda a cidade parecia estar ali, do mendigo da praça ao
prefeito. Também muitos carros de reportagem, unidades móveis de jornais
e emissoras de cidades próximas – e até da capital! Toda uma sorte de
forasteiros – grupos de padres, cientistas, curiosos – comprimia-se na
pequena praça e disputava o exíguo espaço com os curiosos locais. Em
meio a um burburinho infindável, todos olhavam para o pequeno sobrado –
ainda de janelas fechadas – como se estivessem examinando uma nave
espacial. Falava-se baixinho, um zumzum de mosca, como se houvesse um
temor de despertar os “extraterrenos”.
às
oito em ponto soou, britânico, o despertador dos Dino. Dona Terê
levantou, sonolenta ainda. Foi abrir as janelas da casa, como de hábito,
para que a luz do sol penetrasse democrática em todos os aposentos –
menos no quarto de empregada, cômodo mal localizado na sombra e infenso à
luz da manhã. Desapertou os trincos da janela da sala, empurrou as duas
madeiras. Assim que colocou a cabeça fora a multidão inquietou-se,
percorrida por uma inquietante onda de cochichos. Quando a dona da casa
perguntou o que significava aquilo, não houve resposta – burburinhos
apenas. Foi chamar o marido sob os lençóis, ainda no sétimo sono. O
Professor despertou, com a insistência rara da mulher. Limpou olheiras,
calçou chinelos. Foi ver, na janela, a bagunça. Voltou branco:
— Terê! Você contou para alguém?
Dona Terê percebeu que o marido referia-se ao pesadelo lunático que tivera durante a morte:
— Por Deus, não! Iriam pensar que somos loucos!
A
campainha tocou. Inquiridora. Porta-voz da multidão que se escondia lá
fora, nas calçadas telhados e carros de reportagem, com aquela
docilidade peculiar às massas enfurecidas. O Professor foi ver. Pensou
duas vezes antes de torcer a maçaneta que o separava dos olhos curiosos
que o sitiavam. Pôde enxergar pelo entreabrir da porta a silhueta de
dois repórteres que insistiam em uma entrevista: “O Senhor Confirma essa
história da Lua?”. O Dino recusou-se, polidamente, a falar. Antes de
fechar a porta, entreviu pela fresta um grupo de pessoas – do outro lado
da rua. No meio estava a empregada da casa, muito entusiasmada, falando
pelos cotovelos. O Professor compreendeu, num relance, o que tinha
acontecido. Na certa a criada havia escutado sua conversa com Tereza – e
pronto, dera com a língua nos dentes! Ouviu-a dizer a um repórter:
— Tô dizeno, doutô! O Professor viu a Lua comer toda aquela gente.
Voltou para a sala. Sentou-se na poltrona, junto ao telefone. Disse à Dona Tereza:
— Foi a empregada...
— Mas que povo besta é esse? Será que alguém está acreditando nessa história ridícula?
Dino olhou-a com reprovação:
— Quer dizer que você não acredita? Pensa que estou louco??!
Antes que Dona Terê respondesse, o telefone tocou. Dino atendeu.
— Alô?
—
Professor Dino? Vamos direto ao assunto. Meu jornal está disposto a
oferecer uma boa quantia em troca de uma entrevista exclusiva! O senhor
tem cinco minutos para decidir, mais ou menos o tempo que o carro da
reportagem levará para chegar aí. Clic.
Dona
Tereza, escutando aquilo, começou a tagarelar. Pôs-se a dizer ao marido
que ele não tinha direito à recusa. Afinal, fosse ou não fosse uma
história absurda, produto ou não da sua loucura, ela poderia tirá-los da
miséria que se aproximava. Pois o Dino nem se coçava por um emprego.
Ele, que se buscasse acharia – único homem a gozar em vida o prestígio
da própria posteridade, póstumo que era de si mesmo. Dona Tereza se
exaltava enquanto dizia: “Então, homem? Se você não pode arranjar
dinheiro de uma forma, vá consegui-lo contando mentiras!” E apontava o
pacote de sal, insinuando os dias contados – como areia de ampulheta!
Era
a primeira vez que Tereza lhe falava naquele tom. Mas o Professor
estava preocupado demais para considerar aquilo, mergulhara numa
reflexão de segundos.
Quando ouviu, lá fora, a buzina da reportagem, já tinha tomado sua decisão.
O
povo abriu passagem para o póstumo, como se ele fosse uma espécie muito
rara de marciano. Não se pronunciou palavra, até que ele entrasse no
carro da emissora. Depois sim, um grupo de padres começou a atiçar umas
beatas contra o herege. Onde já se viu? Negar a existência de Deus – do
paraíso celeste! Aquele ateu safado ainda era capaz de inventar
histórias fantásticas! As beatas chegaram a pensar em apedrejar a combi.
Foram contidas pelos policiais – a violência legal. Finalmente o
veículo arrancou, depois de esquentar o motor, abrindo passagem pela
multidão. Pegou a rua principal e depois a estrada, já que a emissora de
TV que comprara o relato do Dino ficava em uma cidade vizinha, um
bocado maior, e a mais ou menos uma hora de distância. Dona Tereza
observou, da janela do sobrado, a combi desaparecer no horizonte da
estrada. Talvez as “histórias” do marido servissem para alguma coisa,
enfim...
*
O
programa – a entrevista do Professor Dino, o “póstumo de si mesmo” –
foi transmitido para diversas cidades. Desnecessário repetir aqui a
narrativa do Professor, uma vez ter sido ela bem semelhante àquela feita
à Dona Terê. Muito naturalmente, escandalizou a platéia e os
entrevistadores, que nunca tinham escutado coisa tão absurda. O que
pretendia aquele louco? Será que desejava, com aquela história ridícula,
derrubar todos os sistemas religiosos e metafísicos que a humanidade
construíra com tanto esmero, através dos séculos? Era curioso examinar
as expressões faciais das pessoas, à medida que o relato do Dino
evoluía. Quando chegou à parte final – aquela em que declarou ter
escutado com bastante clareza os gritos e gemidos das almas aprisionadas
no minério lunar – o público reagia de maneiras diversas. Uns riam.
Outros se escandalizavam. Alguns permaneceram indiferentes – era “apenas
um louco”. Mas em geral havia uma franca hostilidade de todos para com
aquela figura estranha, que expunha despudoradamente seus pesadelos
heréticos e fantásticos.
Alguém perguntou, sem procurar disfarçar um risinho debochado que escapulia pelo canto da boca:
— E o que deveremos fazer, se quisermos escapar ao destino de virar “chiclete da Lua?”
O
público caiu na gargalhada. Dino, sem perder a compostura, disse não
saber, ao certo. Tínhamos que nos esforçar, talvez, para adquirir uma
alma resistente, um espírito capaz de vencer o poder magnético da Lua.
Tínhamos que despertar do nosso sono orgulhoso, compreender que fazíamos
parte de um universo antropófago, onde tudo comia tudo. Sua experiência
traumática lhe deixara um palpite de que havia, em alguma parte, homens
privilegiados que tinham escapado àquele terrível destino, mediante
esforços individuais. Certo, não os vira. Mas devia haver, ainda
que fossem muito poucos. Mas não é, certamente, rezando – disse ele –
que vocês escaparão a essa regra geral! É preciso que façam um trabalho
sobre vocês mesmo. Mas, na verdade, eu pouco ou nada sei sobre
isto. Também eu, conforme lhes contei, quase fui engolido pela Lua...
Nisso
surgiu – vindo da platéia indignada – um desses religiosos fanáticos.
Daqueles que, escoltados por dois ou três querubins, conversam com Deus
em praça pública, sabem a data certa do fim do mundo e conhecem o
caminho do Inferno. Saltou sobre o Dino, as mãos dispostas em garra.
Queria estrangular, de qualquer maneira, o herege – o ímpio. A segurança
foi acionada — tiveram que livrar o Professor das mãos do fanático,
embora todos estivessem torcendo pelo último. De qualquer forma, o
programa teve que sair do ar. Vieram os comerciais e a entrevista foi
encerrada em meio àquela balbúrdia.
Na
saída, depois de ter passado na tesouraria para apanhar o cachê, o Dino
deparou-se com um grupo grande de pessoas. Esperavam-no do lado de fora
da emissora. Calculou logo que tencionavam agredi-lo – por sorte não o
tinham visto ainda. Deu meia-volta, entrou de novo no prédio. Observou
que havia uma saída lateral – devia dar para um dos lados do quarteirão.
Saiu por ali, não havia ninguém esperando.
Ficou
curioso a respeito da pequena multidão – seriam fanáticos? Vira um
padre entre eles. Resolveu examiná-los de longe. Deu duas voltas e
posicionou-se em uma esquina escondida, de onde podia observar tudo sem
que ele mesmo fosse visto. Assistiu à multidão apanhar por engano um
passante, pensando que fosse ele. Quase lincharam o homem. Depois
perceberam o erro – o Dino era mais alto, não era calvo, nem usava
bigodes. Pediram mil perdões, encabulados – e acabaram se dispersando. O
Professor, da sua esquina estratégica, ficou apavorado. Sentiu que a
partir daquele instante a sua saúde correria perigo. Nunca deveria ter
revelado, publicamente, a verdadeira história de sua morte...
Era
óbvio que aqueles homens – adormecidos por uma civilização que os
ninara com suaves contos de fada sobre os bem aventurados destinos dos
homens mortos – ainda não estavam prontos para aceitar a idéia de que
eram personagens de uma “antropofagia oswaldiana”. Os índios, os povos
selvagens da África, as tribos primitivas do Oriente – sabiam-no, ou
pelo menos desconfiavam de que não havia nada “tão glorioso” no destino
humano. Erguiam monumentos à Lua, promoviam cultos orgíacos onde se
sacrificavam aos seus deuses, comiam-se uns aos outros – num ritual de
exaltação ao destino inevitável que os aguardava depois da morte. Mas os
civilizados, os inventores da máquina e da técnica, não eram capazes de
admitir a sua própria mecanicidade. Nem de reconhecer que a Natureza
não lhes reservara nenhum lugar especial no universo, apesar do
intelecto que ostentavam.
E,
pensando bem, seriam capazes de cometer sabe-se lá que temeridade se um
dia descobrissem a verdade. Poderiam imaginar uma vingança, dessas bem
humanas, como atirar uma bomba atômica no organismo lunar – sem saber
que no dia em que a Lua deixasse de existir a própria vida orgânica
sobre a Terra fatalmente se extinguiria, inútil que se tornaria diante
dos objetivos planetários superiores.
O
Dino ia começar a divagar sobre o que deveria fazer a partir daquele
momento – já que lhe tinha ficado bem claro que ele e Terê corriam
riscos de vida – quando sentiu um toque no ombro. Tremeu na base – seria
um algoz? Uma impressão sempre o perseguira, depois que voltara do
túmulo. Sentia-se um quitute – uma maçã entre os dentes de um porco
assado. Mas agora ainda tinha o agravante de ter assegurado a antipatia
do porco, ao revelar o destino inglório que o esperava na boca dos
convivas. Os convivas eram o Satélite, é claro, com suas rochas brancas
de dez mil bocas. O Professor virou-se para ver quem lhe tocara o ombro,
preparando-se para o pior. Um susto. Viu um homem muito estranho, já
idoso – e quase albino. Tinha os olhos penetrantes, hipnóticos.
Parecia um lunático! Ouviu quando ele lhe disse, com uma voz meio rouca:
— A Lua não está gostando nada dessa agitação toda que você está fazendo. Assim, ela terá que comê-lo antes do tempo ...
— Mas...
— Quer um conselho? Guarde em segredo o que você descobriu...
Esfregou
os olhos. Olhou de novo. O homem tinha de fato desaparecido. Ou então
nunca existira – alternativa na qual ele estava mais inclinado a
acreditar. Obviamente, fora uma ilusão criada por seu espírito
hipertenso. Uma alucinação – coisa explicável em qualquer manual barato
de psicologia. Dois minutos depois o Dino já não se lembrava mais,
sequer, do rosto da sua alucinação, que lhe sumira por completo da
memória. Viu um telefone público. Para lá se dirigiu com a intenção de
fazer uma ligação interurbana para Dona Terê. Entrou debaixo da orelha,
discou rápido os números de casa. A esposa atendeu – contou ao Dino que,
não fazia dez minutos, alguém tinha atirado um tijolo na janela deles,
deixando o vidro em pedaços. Por sorte ninguém se machucara. Só a
empregada, que se cortara em um caco de vidro. Concordaram sem muita
conversa que teriam que se mudar, talvez para um lugar onde o Dino não
fosse conhecido. Dona Terê sugeriu um ponto no mapa da Bahia, onde
morava um irmão seu...
Depois
de devolver o telefone ao gancho, o Dino deteve-se em um pensamento.
Pobre Terê, tão aristocrática... Com toda a sua classe, com todo o seu
sangue falsamente azul, com toda a sua moral burguesa – e mesmo assim
seria comida pela Lua. Ficaria grudada no queijo lunar, juntamente com a
empregada que se cortara com o caco de vidro, com o mendigo que recebia
dominicalmente a sua esmola arrogante, com todos os ricos e pobres do
mundo, à espera da desintegração do espírito...
Quando deixou o orelhão, já era noite alta. O céu tinha estrelas, a Lua parecia um sorriso, a zombar do mundo...
*
A
população de Salamandra do Norte recebeu o Professor com bastante
entusiasmo. Já sabiam que o homem tinha morrido e depois ressuscitado –
mas ignoravam por completo a entrevista em que ele revelara, entre
outras coisas, que a humanidade não passava de “comida de Lua”. O Dino
estava, portanto, na confortável e prestigiosa posição que tivera antes
de revelar o que se passara em sua morte.
Podia,
assim, à luz das experiências anteriores, poupar-se de cometer os
mesmos erros. Sabia, por exemplo, que – se quisesse conservar a
saúde – deveria guardar completamente segredo sobre aquelas coisas. Os
homens ainda não estavam preparados para encarar a sua própria nulidade,
a sua estupidez ... Se lhe perguntassem alguma coisa sobre sua
experiência “póstuma”, teria que se calar – ou então inventar alguma
história bonita. Diria que conversara com Deus, tomara um dedo de chá de
sumiço com Padre Cícero, compusera um samba com São Benedito. O
importante era não ir de encontro aos paraísos que aquelas pessoas
construíram com tão comovente esmero em séculos e séculos de carolismo
tolo ...
O
irmão de Dona Tereza era o prefeito da cidade. Recebeu a irmã e o
cunhado com canapés e banda de música. Nunca uma personalidade tão
ilustre – um homem que regressara do além – tinha pisado em Salamandra
do Norte. O povo do lugar olhava o Professor com o mesmo respeito que
deviam a um santo. Nem imaginava que o ilustre era um herege, trazendo
consigo sonhos fantásticos e absurdos! O único a par de tudo era o
prefeito, que naturalmente jurara segredo à irmã. Depois das
festividades de boas-vindas, chamou o Dino para uma conversa:
— Cunhado! Eu vou te propor um negócio da China.
— Vermelha?
— Formosa...
Ninguém
na cidade soube ao certo o que foi conversado naquela noite. Senão que
devia estar relacionado com uma estranha construção que começou a ser
erguida no dia seguinte, no ponto nobre de Salamandra. Era uma espécie
de “Abaitolá”. Uma tabuleta dizia que a partir daquela obra, Salamandra
do Norte teria o privilégio de se tornar o centro de todas as romarias e
peregrinações do mundo, pois Deus a tinha escolhido para sua capital –
espécie de embaixada do Céu naquele mundo de privações e sofrimentos
ainda apartado da companhia mais imediata do Todo-Poderoso.
O
Dino passou a andar com um turbante exótico – adotou um nome novo:
‘Senhor Matreiro’. O povo o tratava com uma admiração desmedida. Ninguém
cruzava seu caminho sem pedir-lhe uma benção. Faziam-se filas enormes
diante da porteira do sítio do prefeito, onde o Senhor Matreiro estava
provisoriamente hospedado, com sua santa mulher. Todos queriam conselhos
daquele mestre oculto, daquele orixá vivo, daquele enviado de Oxalá –
mano mais velho de Ogum e padrinho de Iemanjá ... Os mais católicos
assimilaram-no a um santo, e já tramitava nos bastidores burocráticos do
Vaticano um processo de canonização. Os judeus haviam lhe concedido o
título de rabino honorário, os espíritas reverenciavam-no como o Grande
Consolador.
Quando
o Abaitolá ficou pronto, o Senhor Matreiro mudou-se de imediato para
lá. Na festa de inauguração subiu em um palanque, armado para o
discurso:
— Minha gente! Hoje eu vou contar, pela primeira vez desde que regressei dos labirintos do além, a história de minha morte...
Um
burburinho de gravidade percorreu a multidão. O Senhor Matreiro – o
“homem que regressara” – ia permitir, finalmente, que todos soubessem
algo sobre o outro lado da vida...
—
Quando eu morri, fui acordar ao lado de um anjo. Não vou perder tempo
descrevendo suas enormes asas ou sua espada de fogo – vou direto ao
assunto. O Querubim me levou para um passeio aéreo, sobre uma vasta área
do Paraíso. Era um espaço muito verde – cheio de uma vegetação
celestial que não se conhece aqui na Terra. Uma pintura! Era respirar
aquele ar puríssimo e dava gosto ter morrido. Fora as praias, montanhas,
campos floridos e cachoeiras de água límpida – o que se possa imaginar!
Olhei com atenção e vi uns edifícios – formidáveis obras de
arquitetura. E havia outros sendo construídos ainda – puros mas
promissores “esqueletos”, mal saídos das plantas de engenharia.
Perguntei ao anjo:
— Mano-de-asas, que edifícios são aqueles? Quem vai morar neles?
— Caçula, aqueles apartamentos estão reservados para os que morrerem futuramente...
Pousamos
em um patamar, de onde dava prá ver todo o enorme conjunto habitacional
que cortava o Paraíso Celeste. O anjo continuou:
—
Há alguns anos temos tido problemas de habitação, aqui no Céu. As
pessoas têm morrido aos montes, sem nenhum controle de mortalidade, e
muitas vezes não há moradia para todos. Resultado: Muitos acabam tendo
que improvisar suas habitações ao relento, sob a cobertura dos viadutos
que cortam o Céu. Outros são obrigados a emigrar para o Purgatório,
mesmo sendo bons o suficiente para o Paraíso. Mano, o problema da
habitação é um caso sério, aqui no Céu. Mas parece que agora encontraram
a saída. Vê esses formidáveis conjuntos habitacionais? — Agora haverá
casas para todos! Minto... Infelizmente, ainda não há lugar para todos.
Mas haverá lugar para bastante gente ...
— Mas quem serão os escolhidos?
—
É aí que você entra, caçula! Deus o escolheu para ser o seu “agente
imobiliário” – para usar uma expressão dos seres humanos. Você foi
incumbido de vender, no Planeta Terra, todos esses apartamentos.
Bem-aventurados aqueles que adquirirem suas escrituras... terão um bom
lugar os aguardando, quando morrerem!
Dito
isto, o Querubim me passou as escrituras de quase trezentos mil
apartamentos magníficos, para que eu os revendesse na Terra. Depois me
reconduziu ao meu corpo, que a essa altura dos acontecimentos já ia
sendo velado. Entrei pelos olhos, sem que ninguém me visse – ao fim do
quê o Querubim me fechou novamente na matéria. Acordei, coberto de
flores. Minha santa mulher mal podia conter as lágrimas de felicidade
quando me viu ressuscitar dentre os mortos!
*
Os
primeiros a comprar apartamentos celestiais foram o Coronel Legório e o
Turco Rachide. Legório era um fazendeiro da área, que durante a maior
parte da vida dedicara-se ao aprimoramento dos prazeres mundanos.
Dizia-se que promovia todos os sábados, religiosamente, verdadeiras
orgias em sua fazenda de cacau. Mas desde que a velhice chegara tinha
resolvido reservar as manhãs de domingo para a prática do temor a Deus –
ia à missa como todo mundo, assistia às festas da Igreja, contanto que
essas não caíssem no sábado, dia sagrado e consagrado à prática de
libertinagens. Rachide era dono de armazém, patrão de dois pretos
extremamente idosos que se lembravam com saudade dos tempos da
escravidão. Não era figura muito querida em Salamandra, dado que era a
práticas como a de misturar água ao leite e ainda vendê-lo mais caro.
Esses
dois ilustres tinham combinado que seriam vizinhos no Paraíso.
Compraram dois belíssimos apartamentos, com vistas para o mar de nuvens
que se estendia para além do infinito. O Coronel Legório pagou à vista.
Já era dono de algumas propriedades aqui no mundo dos vivos. Agora teria
terras também no Céu. O Turco Rachide assinou um contrato para
pagamento em suaves prestações. Quis saber se também havia propriedades à
venda no Purgatório e no Inferno. O Senhor Matreiro foi categórico: “Só
trabalho para o Todo-Poderoso! Bem que o Diabo andou me oferecendo uns
empregos... Mas meu negócio é com Deus”.
Depois
começaram a surgir dezenas de compradores. A maioria adquiria seus
imóveis à prestação. Muitos dos edifícios ainda estavam sendo
construídos – mas quando morressem já estariam prontos. Receberiam as
chaves no ato da sua morte!
A notícia de que estavam sendo vendidos apartamentos no Paraíso correu mundo.
Afluíram
para Salamandra do Norte centenas de fiéis, ateus e franco-atiradores –
à procura do Senhor Matreiro. O Santo os recebia em seu modesto
abaitolá. Dos pobres aceitava pequenas quantias, dos ricos exigia
grandes fortunas. “De cada um, segundo a sua capacidade...”, costumava
dizer. O importante, mesmo, era que cada um adquirisse o seu imóvel.
(Dizia-se que até o Santo Papa, o ministro de Deus, estava pensando com
muita seriedade em adquirir uma suíte no principal edifício celeste.
Ainda não viera à Salamandra do Norte, para conhecer o Senhor Matreiro,
porque faltava uma autorização das bases do Vaticano. Uma bobagem
burocrática! Mas já se podia contar com ele — e também com todos os seus
assessores.)
O
fato é que, cinco anos depois da inauguração do empreendimento, o
Senhor Matreiro já tinha vendido quase duzentos mil imóveis do Céu.
Dizem que àquela altura já era um dos homens mais ricos do planeta. O
Prefeito também se tornara uma pessoa ilustre – um político proeminente!
Já acumulava cargos elevadíssimos no governo, tornando-se inclusive um
sério candidato à presidenciável da república. A ascensão política lhe
fora fácil, depois que recebera o apoio econômico e moral do Senhor
Matreiro. Este, curiosamente, tornara-se um poderoso latifundiário –
dono de numerosas propriedades aqui na Terra. O santo homem, enquanto
vendia apartamentos e terrenos do Paraíso, ia adquirindo – muito a
contragosto – uma fabulosa fortuna material, além de centenas de
terrenos neste mísero planeta. Tinha se incumbido da árdua tarefa de
transformar a riqueza material – dos outros homens – em riqueza
espiritual! Permitia, às vezes, que estes trocassem suas miseráveis
fazendas e imóveis terrenos por sublimes e celestiais apartamentos na
Terra de Deus. Vendera para um político de renome um apartamento no
principal condomínio do Paraíso – permitindo assim que este se tornasse
um futuro vizinho do próprio Jesus! Era um homem, como se pode ver,
digno do projeto de santificação que tramitava nos porões do Vaticano.
E
apesar de tudo era um homem simples. Levava uma vida quase retirada. A
população do lugar raramente tinha a felicidade de vê-lo caminhando
pelas ruas.
*
Um
dia, Santa Tereza viu o marido – triste – sentado no terraço do
Abaitolá. Tinha os olhos fixos no céu estrelado (uma noite belíssima).
Olhava, mais precisamente, a Lua. O Satélite ainda causava certa
influência naquela figura extraordinária. Dona, digo, Santa Tereza –
adivinhou os pensamentos que lhe iam pela cabeça:
— Ainda pensando nessas bobagens, querido?
O santo virou-se para a esposa:
—
Veja só, Terê, a estupidez de toda essa gente! Quando eu lhes disse a
verdade, fui perseguido, injuriado, apedrejado. Consideraram-me um
louco, um subversivo – só porque lhes disse o que não queriam ouvir. E
veja agora: depois que passei a contar as mentiras que eles queriam, fui
transformado no homem mais rico e respeitado do hemisfério. A
humanidade, Terê, não é capaz de encarar a sua verdade – mas está sempre
pronta a pagar para que lhe conservem na ignorância.
—
Amor! Já não tínhamos concordado que aquela história da Lua era uma
alucinação sua? Já não tínhamos combinado que, doravante, só iríamos
dizer às pessoas, o que elas quisessem ouvir? Então...
—
Eu sei, Terê... Mas às vezes, em noites de luar tão claro, minhas
lembranças daqueles pesadelos tornam-se tão nítidas que quase volto a
acreditar nelas! A Lua ainda me assusta...
De
repente, ouviu-se um barulho. Surgiu no terraço , vindo não se sabe de
onde, um doido. Tinha os olhos esbugalhados, uma embriaguez de profeta
bíblico. O Senhor Matreiro prestou atenção na sua fisionomia.
Lembrou-se. Era o mesmo fanático religioso que o agredira, há anos
atrás, durante a sua controvertida entrevista para uma emissora de TV –
quando ainda era conhecido como “Professor Dino”. Ouviu quando o louco —
com os olhos faiscantes de raiva – lhe disse:
—
Seu herege! Procurei-te por toda a parte! Pensaste que ias conseguir te
esconder sob um novo nome, e sob esta roupa estranha? Pensaste que tuas
blasfêmias ficariam impunes? Em nome de Deus! Tu vais morrer,
coisa ruim.
O
doido tinha nas mãos uma pistola velha. Santa Tereza, desesperada,
desceu as escadas do terraço para chamar os seguranças. Voltou com dois
gorilas. Mas era tarde! O corpo do Senhor Matreiro jazia, sem vida e sem
esperança de retorno, no chão aberto. O doido desaparecera. Havia um
bilhete, escrito com uma caligrafia alucinada:
— Foi a vontade de Deus!
Nada
mais a fazer, um dos seguranças aproximou-se e fechou os olhos da
vítima. Cobriu-a com um pano branco. Notadamente branco – efeito do luar
muito claro que se derramava sobre o terraço do Abaitolá. Amanhã,
bem cedinho, sairiam as manchetes. Seriam feitas reportagens de página
inteira sobre a enigmática figura do Senhor Matreiro, assassinado
brutalmente como todos os mártires – como todos os grandes homens. E à
noite, o mundo poderia chorar a morte do santo...
*
O
Senhor Matreiro já conhecia, naturalmente, a morte. Pois não fora
graças a ela que fizera fortuna? Pôde seguir tranqüilo, o se próprio
enterro. Terê ia, chorando, logo atrás do caixão – em cujas alças alguns
amigos seguravam. Observou, num vislumbre, que a procissão que o
acompanhava era enorme! Muitos ali eram proprietários de imóveis do
Paraíso ... Riu. Se aqueles tolos soubessem que tinham comprado os seus
sonhos ... Súbito lembrou-se de si mesmo! Tinha morrido, com atestado de
óbito e tudo! O que o esperava agora? Por certo não era o Jardim das
Delícias, que vendera – em pequenas partidas – a toda aquela gente. O
que, então? Mal teve tempo de focalizar o pensamento naquela questão
crucial, quando avistou – ao longe – duas aparições. Pôde constatar,
surpreso, que um era ele mesmo. Mais precisamente – o Professor Dino! O
outro era o albino, de olhos penetrantes, que encontrara há muitos anos –
na saída de uma emissora de TV. O lunático disse, com um tom de ironia:
— Trago-lhe aqui um velho amigo seu... O Professor Dino!
E
desapareceram, antes que ele pudesse esfregar os olhos. Foi aí que ele
percebeu que, por alguns, estivera sonhando. Até ali seu subconsciente
inventivo lhe pregava peças! Viu que àquela altura a multidão que
acompanhava o seu corpo tinha se distanciado bastante, deixando seu
espírito sozinho – naquele mundo sem mortos nem vivos. Ao mesmo tempo
ele não era mais – apenas – o Senhor Matreiro. Era também o Dino, o
Professor, e todas as demais personalidades que vestira em sua
existência terrena! Mas não diminuía em nada a sua solidão o fato de ele
ser três ou quatro pessoas ao mesmo tempo. Ia começar a se sentir o
único solitário da Terra quando ouviu um estranho chamado, vindo do
alto. Olhou para cima e viu a Lua ...
Quando
se deu por si, já estava próximo do Satélite. Era, precisamente, o
ponto exato em que fora interrompida sua primeira viagem – por ocasião
da sua morte inicial. Olhou em volta, medroso. Viu uma multidão de almas
que, junto com ele, eram absorvidas pelo imã lunar. Tentou debater-se,
escapar à influência que o absorvia. Inútil. A Lua aproximava-se
devagarzinho, com suas crateras e desertos gelados. Ouviu o gemido dos
milhões de almas aprisionados no minério – no “queijo” lunar. O inferno
vinha. Vieram todas as lembranças de já ter percorrido aquela trajetória
antes. Mas da outra vez não passara daquele ponto, já que a certa
altura começou a ser puxado para trás – até acordar no meio das suas
próprias flores, do seu próprio velório. Agora não! A Lua continuou a
atraí-lo, para seu desespero. Tudo se encaixava tão bem com o que se
lembrava da sua primeira aventura, parecendo ser a continuação natural
desta, que já lhe era impossível saber se estava de fato em sua “segunda
morte”, ou se simplesmente estivera delirando, naqueles segundos
terríveis. Tinha sonhado que retornara à vida, que ressurgira dos
mortos, que ficara célebre com suas histórias fantásticas, que se
tornara o Senhor Matreiro, que vendera imóveis do Paraíso para milhares
de tolos – e que, por fim, fora assassinado... Mas não! Talvez (nunca
saberia ao certo) seu subconsciente tivesse fabricado aquelas
lembranças, para distraí-lo naqueles instantes insuportáveis que o
separavam da sua chegada ao inferno.
A
pedra que fora reservada para o seu suplício ficava, por ironia, no que
os astrônomos chamavam de ‘o mar da tranqüilidade’. Foi absorvido pelo
minério, incorporou-se a cada um de seus átomos. Havia perto um módulo
de metal, pedaço de algum foguete russo. Já estava ocupado por duas ou
três almas. Os espíritos que – como ele – iam chagando, eram
imediatamente chupados pelas rochas e crateras. Ali iriam esperar, até
que sua memória se extinguisse, como se armazenados em um frigorífico
enorme. Depois seriam digeridos pelo astro.
O
Planeta Terra, visto dali, seria para qualquer homem vivo uma imagem
belíssima. Mas não para os mortos – para os chicletes de lua! Para
eles representava o que tinha se perdido, o leite derramado. E o que se
perderia ainda... Ali dormia uma humanidade que sequer suspeitava do
seu terrível destino. Homens mecânicos, falando um bilhão de línguas
diferentes. Babel. Dona Tereza, Terê, Santa Tereza... cada ser humano
escondia uma pluralidade de personalidades, cada uma delas condenada ao
mesmo fim. O planeta Terra... Ali se faziam, naquele instante,
revoluções populares. Guerras. Escreviam-se livros. Construíam-se
edifícios. Inventavam-se religiões, cada uma assegurando aos seus fiéis a
vida eterna. Tudo mecanicamente – e ninguém se apercebia disso. Rebanho
de formigas...
A
alma que fora o Dino, o Professor e o Senhor Matreiro, estava agora
mergulhada nos seus delírios. Precisava fabricar imagens que
dessem uma forma ao seu sofrimento. Alguns de seus colegas de
infortúnio, nos minérios ao lado, sonhavam com Deus e o Diabo –
imaginavam caldeirões de enxofre e pequenos demônios que os fustigavam,
comprimiam os olhos que já não tinham, pura energia que eram, na
esperança de ao descerrá-los vislumbrarem os paraísos que em vida lhes
foram prometidos. Somente os animaizinhos e as plantas, esses seres
irracionais, aceitavam sem nenhuma dor ou trauma a sua breve vida
mineral, à espera da aniquilação. Era, enfim, um matadouro muito mais
suave do que qualquer um dos que os homens tivessem um dia inventado. Já
os seres humanos, os racionais, estavam todos presos aos seus
fantasmas, aos seus diabos, à sua consciência outrora arrogante. Davam
forma ao seu sofrimento. Ele, o Sr. Dino-Matreiro, preferiu fabricar
algo mais sofisticado do que aquelas figuras dantescas. Julgou ouvir
passos. Pensou ver uma sombra, por trás de uma rocha. Fixou-se na
figura, meio humana, que criara. Um focinho enorme, uma língua elástica.
O monstro apanhou alguns pedaços do queijo lunar, que iria mastigar
como chicletes. Virou-se na sua direção. Lambeu sua estrutura rochosa.
Ainda não estava boa – precisava antes esgotar toda a sua soma memória.
Voltaria depois – não tinha pressa. Tudo ali era seu. Até o módulo do
foguete russo. Os astronautas que ali o deixaram, há alguns atrás, nem
imaginaram que a Lua era habitada por um bilhão de almas. E por um
imenso tamanduá ...
___________________
José D'Assunção Barros
doutor em História pela UFF, professor da Universidade Federal Rural do
Rio de Janeiro. autor de vários livros, entre os quais "O campo da
História", "Cidade e História" e "A construção social da cor".
[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número
10 - teresina - piauí - julho agosto setembro de 2011]